O concerto de Leonard Cohen onte en Algés, Lisboa, foise ben por riba das dúas horas. Interpretou boa parte das súas cancións máis coñecidas, coma Suzanne, Take this waltz ou First we take Manhattan, mais deixou Chelsea hotel para outra ocasión. Iso foi o que me contaron, porque eu estar non estiven: finalmente, fun á Praza de Touros de Campo Pequeno para ver a Lou Reed e gozar ao vivo desa abraiante marabilla que é Berlin, Despois dunha mínima obertura que adianta a peza final, o show comeza coa canción que lle dá título para seguir logo cunha estiradísima e memorábel versión de Lady day. Despois, Men of good fortune, Caroline says (I), How do you think it feels, Oh, Jim, Caroline says (II) a estremecedora The Kids e a fermosísima The Bed ("...and I said, oh, oh, oh, oh, oh, oh, what a feeling"), que dá paso á grandiosa canción de peche, o Sad song ("I'm gonna stop wasting my time / Somebody else would have broken both of her arms...):
Amsterdam, 21 de xuño de 2007 (vídeo de martinirosen)
O público aplaude con toda a forza que lle queda nos brazos, e Lou Reed presenta e homenaxea a todos os membros da banda, orquestra e coro que o acompañan sobre o escenario. Está contento e xeneroso, tanto que até lle canta o Happy birthday to you a un dos músicos. Retíranse todos e os aplausos continúan; é tempo de que saian de novo e soen os bises. Para empezar, Satellite of love:
Edimburgo, 25 de xuño de 2008 (vídeo de jules2view)
O crescendo mantense cun intenso Rock & Roll:
Zurich, 2 de xullo de 2008 (vídeo de IcyDarkChose)
E todo remata de maneira elegante e delicada con Power of the heart:
Edimburgo, 25 de xuño de 2008 (vídeo de jules2view)
En total, dúas horas e cuarto certamente inesquecíbeis. Os que non puideran velo, que estean atentos á próxima estrea en España do documental-concerto de Julian Schnabel; distribúe Notro Films.
¶
Ele estava claramente numa das suas noites. E isso notou-se desde o princípio. Em palco, Lou Reed recriou a magnitude de Berlin num concerto grandioso, em todos os sentidos
Já lhe vimos de tudo. Concertos magníficos, medianos, falhados, aborrecidos. No sábado, Lou Reed e quase três dezenas de acompanhantes foram monumentais na transposição para palco de Berlin, o álbum incompreendido de 1973, que resolveu agora encenar num espectáculo não isento de riscos.
É verdade, o tempo tornou a linguagem rock de Lou Reed em algo conservador. Ao longo de anos, desafiou normas, hoje é ele o modelo. Mas não é o tipo de expressão conservadora que conforte, a sua. É conservadora, mas de uma forma inquietante, densa, suja. Nele, o passado não é idealização. Não se pode ir à procura do reconhecimento, nunca sabemos o que esperar.
Se fosse um concerto de carreira, quase de certeza, que o Campo Pequeno esgotaria, mesmo com a concorrência de Leonard Cohen, Arnaldo Antunes ou do Festival Delta Tejo. Assim, não. Perdeu quem não foi, porque Lou Reed estava nas suas noites.
O público, esse, era maduro, como se esperava. Trajado a rigor, elas vestidos vaporosos, eles camisas brancas. Acessórios preferidos: leque, pelo calor, binóculos, não fosse perder-se algo. Assistência selecta, logo. Rock & roll, mas com distinção.
Em palco, produção operática. Coro de 12 vozes angelicais do New London's Children Choir. Cordas e metais por sete músicos da London Metropolitan Orchestra. E um naipe de grandes executantes como Fernando Saunders, baixo, Mike Rathke, guitarra, Rob Wasserman, contrabaixo, ou Tony Smith, bateria.
Cenário desenhado por Julian Schnabel. Imagens, transmitidas ao longo do concerto, de Alejandro Garmendia e excertos de um filme inspirado em Berlin, realizado por Lola Schnabel.
Direcção musical de Bob Ezrin e Hal Willner - o homem das óptimas homenagens musicais a Kurt Weill ou Leonard Cohen -, que seria o cicerone, surgindo em palco para dizer que aquela era a 43.º apresentação. Elenco de grande nível, portanto.
O desfilar dos temas, com ligeiras nuances, seguiu o alinhamento do álbum, mas a moldura sónica, arranjos e criação de momentos inesperados tornaram muitas das canções, se não irreconhecíveis, pelo menos diferentes - mais intensas, mas também mais clarividentes - daquilo que se conhece de uma obra, Berlin, conjunto de canções sobre a relação agitada entre Jim e Caroline, marcada pelas drogas, sexo e veemência. Uma história de violência, amargura e desolação, encenada numa Berlim mais imaginária do que real, concebida como ciclo narrativo, como acontece tantas vezes nas obras de Lou Reed.
Os dois primeiros temas nem foram muito inspirados. Estrutura semelhante, começando pianíssimo, terminando em cavalgadas sónicas apoteóticas, com alguns excessos pelo caminho nos solos de guitarra. Mas, aos poucos, a coisa foi-se compondo.
Desde cedo se percebeu que estava nas suas noites. É verdade que, só no final, comunicou com o público, soltando um "muito obrigado", antes de apresentar todos os intervenientes, mas percebeu-se desde logo, pela excelente interacção com os restantes músicos, que estava solto e desprendido.
Um dos momentos em que isso foi mais evidente foi quando o colectivo, de forma inesperada, citou James Brown, cantando excertos de Sex machine e Say it loud, I'm black and I'm proud. De repente, densidade e dimensão lúdica misturaram-se, e nem a voz distinta mas monocórdica de Reed as eliminaram.
No final de Men of good fortune, depois de projectadas imagens de soldados, de vários períodos e de muitas guerras, a assistência presta-lhe a primeira grande ovação. Lou, imperial, ergue a guitarra no ar, em sinal de agradecimento.
Ao longo do concerto suceder-se-ão as longas digressões instrumentais. As canções estendem-se, os novos arranjos atribuem-lhe um dinamismo que não se lhes reconhecia e as silhuetas sombrias são atravessadas por claridade, com o coro e as cordas a emprestar-lhes maior consistência dramática.
Canções como Caroline says, The kids ou The bed não perdem nenhum do seu impacto emocional. Surgem mais directas, sem perderem complexidade estrutural. Sad song, a faixa final, é uma espécie de súmula, com coro, orquestra, banda e a guitarra e voz de Lou Reed numa comunhão electrizante.
Cada um dos músicos tem o seu momento, mas o impacto colectivo vem sempre primeiro. No final, Reed está nitidamente satisfeito por, mais uma vez, ter recriado a magnitude de Berlin, apresentando os músicos e cantando até os parabéns ao violoncelista, que fazia anos. O público está completamente rendido e o regresso dos músicos é exigido.
Quando voltaram, lançaram-se a uma recriação tão longa quanto estupenda de Satellite of love, que incluiu um duelo vocal com Fernando Saunders e momentos colectivos de puro deleite, com todos os intervenientes em sintonia. Rock & roll, dos Velvet Underground, e a canção final, Power of the heart, interpretada de maneira vulnerável, deram por encerrado um concerto grandioso, em todos os sentidos.
Em Lisboa, Cohen fingiu ser um cavalheiro sem dores de alma e, entre arranjos com mais ou menos bom gosto, desfiou as suas profecias malignas com uma voz de tempestade
Conta a lenda que há mais de 30 anos Leonard Cohen, supremo esteta da filha-putice arrependida, entrou no palco para um concerto empinado num cavalo branco. Ontem, sacana maior de entre os sacanas que restam (Dylan, Waits, mais ninguém), entrou - sem cavalo - a passo de trote no palco montado no Passeio Marítimo de Algés. É outro Cohen: foi-se o ópio, a cocaína que usava para combater a depressão (e que odeia), as relações turbulentas com as mulheres, as quedas. Vestido de fato e chapéu pretos e camisa branca, Cohen fingiu, durante três horas, ser um cavalheiro sem dores de alma, mas é óbvio que ele é apenas o cavalheiro que a sua solidão o obriga a ser. E como se isso fosse pouco, ainda cantou.
Começou com uma versão charmosa de Dance me to the end of love, ajoelhou-se a meio, tirou o chapéu. As meninas mais novas (severamente pintadas, em homenagem ao mestre) choraram. E, para que não restassem dúvidas de que aquele era um concerto em que o gosto do público era mais importante do que a melhor música que Cohen fez (o registo do concerto foi o de um "Greatest Hits" o menos depressivo possível), saiu uma versão jazzy de The future. A canção foi bem recebida mas há uma certa ironia em ver dezena e tal de milhares de pessoas a urrar perante uma espécie de versão cantada do Livro do Apocalipse.
De entre os vinte e muitos temas do alinhamento, o grosso veio dos álbuns dos anos 80 e 90: canções baseadas em sintetizadores, com arranjos de música de bar de hotel, de alterne de luxo. Para criar uma unidade com os temas repescados aos anos 60, Cohen optou por bateria, baixo, duas guitarras (ou alaúde), sopros (ou metais), teclas e coro de três meninas. O melhor dos arranjos veio das teclas: um velhinho Hammond salvou todo o tema que ameaçou resvalar para o pântano do piroso. No lado oposto do ringue, esteve o homem que soprava: cada vez que pegou no saxofone (ou na harmónica) reduzia a respectiva canção a um émulo de Kenny G, a um vago amontoado de clichés New Age.
Mas, surpreendentemente, houve Cohen. Em seis, sete canções, o judeu puxou o mais que pôde pela voz, atirou-se aos crescendos que caracterizavam muitos dos seus temas iniciais e levou toda a santa alminha à comoção. Bird on a wire, tirando o horrível solo de saxofone, fez muita gente ceder às lágrimas, Who by fire (em que Cohen pegou na guitarra acústica pela primeira vez) idem, Hey, that's no way to say goodbye, ainda que demasiado aveludado nas pontas, esteve perto, Suzanne foi estupendo e depois houve Hallelujah: a voz sempre a suplantar-se, uma entrega desmesurada, os fortissimos de percussão no tempo certo, o coro a redobrar o quebranto - algo de poderoso aconteceu ali, provavelmente a canção mais emocionante que alguma vez vimos ser cantada ou a canção que vimos ser cantada de forma mais emocional ou a canção que mais emoção vimos causar ao ser cantada. E depois disto ainda houve um So long, Marianne que espantou pela capacidade de se atirar à jugular sem rodeios.
Na secção anos 80/90, houve faixas para encher: Take this waltz, Gipsy wife, um aborrecidíssimo In my secret life, aquela chatice de Boogie Street. Tudo o que de mau há na música de Cohen das últimas décadas - os arranjos ao gosto de Julio Iglesias, o funk branco soft porno, as harmonias de guitarra à Casino do Estoril, os órgãos planantes para dois dedos de Martini em varanda de resort de luxo ao pôr-do-sol - esteve ali demasiado exposto, bem ao gosto dos turistas alemães de classe média alta.
Mas - e ainda nesse campeonato, que fica a milhas de tudo o que o homem fez quando a metafísica da carne lhe roeu os ossos, isto é (e sendo simpático), até 1979, com Recent Songs - houve faixas ao nível do que se encontra em disco: Tower of song tornou-se um monstro, Everybody knows, com pedal steel guitar, esteve acima do original, First we take Manhattan tem uma senhora linha de baixo a bambolear e I'm your man foi de um sarcasmo extraordinário - resta saber se quem cantou a canção aos berros se apercebe de que não é uma canção de charme, mas sim de patética submissão.
Faltou num concerto tão grande (três horas, vinte e tais canções) um tema que fosse de Songs of Love and Hate (a obra-prima absoluta), faltou surpresa no alinhamento, algum pudor nos arranjos, mas o grande trunfo de Cohen - além das canções - é que, por detrás daquela voz de charme e da pose de cavalheiro que está ali por acaso, ele canta: a sida, a crueldade emocional, o sado-masoquismo, o terror, o advento do fascismo, o crack, o sexo anal, o cunilingus enquanto forma de salvação, todas as coisas bonitas de que precisamos quando estamos de férias no Algarve.
Não houve as catarses do início, houve imagens de negrume escondidas entre cortinas de veludo, com cada uma das palavras apocalípticas do judeu a adquirirem a coloração da tempestade em dia claro. Pelo meio, Cohen agradeceu 600 vezes ao público em pose de caricatural humildade e apresentou os músicos 1800 vezes, como um mestre de cerimónias excessivamente cerimonioso - quem conhece Cohen sabe que aquela é a sua forma de ser sarcástico e de gozar consigo mesmo. E sabe que aquele concerto foi a forma possível de dizer adeus, porque já não consegue ter força mental para cantar (por exemplo) Let's sing another song, boys. E, para o público, isto foi uma maneira de agradecer àquele que nos ensinou que religião é uma forma de cair, de preferência em cima de uma mulher.
O sistema de comentarios está á disposición dos leitores de "días estranhos" exclusivamente para a publicación de opinións e comentarios relacionados co contido deste blog. Calquera texto publicado por medio do referido sistema non reflicte necesariamente a opinión do autor deste blog. As opinións e informacións publicadas no sistema de comentarios son de autoría e responsabilidade integral dos leitores que del fixeran uso. O autor deste blog resérvase o dereito de suprimir os comentarios e textos que considere ofensivos, difamatorios, calumniosos, preconceitosos ou de algunha forma perxudiciais a terceiros. Textos de carácter promocional ou inseridos no sistema sen a debida identificación do autor (nome completo e enderezo válido de e-mail) tamén poderán ser eliminados.
(texto copiado hai anos do Carta aberta, que á súa vez llo agradecía ao Inagaki)