A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em Portugal é a aviação. A TAP proporciounou-me uma das mais profundas emoções da minha vida: a visão do Tejo saíndo no Atlântico. Por isso o primeiro monumento que me ocorre quando penso en Portugal é o Tejo. Os meus avós saíram daquele buraquinho trazendo o destino para nós: oito séculos de cultura árabe, a cultura celta do século X, a poesia provençal, tanta coisa. Tudo isso define o Brasil. Ainda hoje, em Irará -uma pequena terra no sertão baiano, onde nasci, a 200 quilómetros de Salvador- tem uma dança chamada "Chegança", em que se representa as vitórias sobre os mouros. Na origem esta era uma dança portuguesa, proibida por ser demasiado sensual.
No ano passado escrevi um libro chamado
Salvador, sobre esa cidade. É um livro de fotos e eu fiz as legendas e escrevi um ensaio acerca de dois assuntos. O primeiro, a independência da Bahia, em 2 de Julho de 1823: o general mandou tocar a corneta para o avanço da cavalaria -e os portugueses debandaram. Só que não havia cavalaria, era truque. O segundo versava as meretrizes. Salvador nessa altura era habitado por muitos marinheiros. Na subida para a cidade alta, as prostitutas faziam uma espécie de fortaleza e obrigavam os marinheiros a passar por uma quarentena. Com isso salvaram Salvador das epidemias que vinham com os barcos e que depois se espalhavam por toda a população. Elas até as freiras salvaram.
Portugal esteve sempre presente na minha vida, só que durante algum tempo não tinha consciência da herança. Com o tempo fui-me apercebendo do alcance da influência portuguesa e há quatro anos, quando me convidaram para dar uma palestra, expliquei que Portugal foi muito injustiçado na questão do Tropicalismo -porque graças a Portugal a gente já estava preparada para uma cultura de fusão. Quando os Tropicalistas chegaram a São Paulo, identificámo-nos imediatamente com as novas tecnologias, as guitarras eléctricas, porque tínhamos sido educados na mestiçagem.
Ainda agora, quando vou a Portugal, acho as pessoas muito parecidas com as pessoas da minha infancia: têm o mesmo tipo de facilidade em demonstrar carinho. E as ruas são semelhantes: Salvador tem os mesmos becos, as mesmas ladeiras, as mesmas calçadas. A seiva da cultura de toda a Bahia é muito portuguesa. Costumamos dizer que as janelas das casas do Largo do Pelourinho de Salvador são portuguesas.
A alimentação do interior da Bahia é muito parecida com a de Portugal. Aliás, Irará é o Portugal de 1500. Costumo dizer que visitei o século XVI de Portugal, porque quando eu era pequeno, o homem da roça era português. Se lerem o romance
Grande Sertão, do escritor brasileiro Guimarães Rosa, descobrem ali a língua toda do homem da roça, que fala a língua das primeiras bandeiras portuguesas que chegaram à Bahia no século XVI. A língua da roça é muito mais ampla do que a língua escrita. Era a que se falava em Portugal no século XVI, fervilhando de aventura e ousadia.
Por isso, quando não estou em Portugal, recordo o país acima de tudo pela literatura e pela poesia. Aqui no Brasil é muito divulgada a poesia do Fernando Pessoa. Há muito que conheço também o Sá de Miranda, o Alexandre Herculano, o Mário de Sá-Carneiro. E leio o António Lobo Antunes -que prefiro ao Saramago. É um génio. Gostei muito de conhecer o irmão dele e director da Culturgest, Miguel Lobo Antunes, um cavalheiro, muito culto.
Há momentos da história de Portugal que me fascinam desde sempre: a briga matricida do primeiro rei, D. Afonso Henriques, Inês de Castro... Mais recentemente tenho recordaçoes inesgotáveis de encontros com a Amália e com os Madredeus. Tenho é pena de só ter estado em Portugal pela primeira vez em 1998. Há um ano que não vou aí -que saudade de Portugal!
(Artigo de Tom Zé para a revista "Up", que se distribúe nos avións da TAP)
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